sexta-feira, 7 de março de 2008

Chamem a juíza Karam!!!

Texto publicado no site de Carta Capital, sobre dois filmes do cinema nacional. Vale a pena ler a crítica ao excelente "Tropa de Elite", comparado ao também excelente "Meu Nome Não é Johnny", por Ivana Bentes . Acompanhe:

Chamem a juíza Karam!!!

05/03/2008 20:16:59

Assistir Meu Nome Não é Johnny depois de Tropa de Elite é ótimo para perceber os discursos estéticos e políticos que atravessam os filmes e seus personagens frente a questão das drogas e da violência: de um lado o mais novo herói brasileiro, o garoto propaganda da cerveja turbinado como Capitão Nascimento e defendendo a “moral da tropa”, a “boa” policia que destila ódio e ressentimento contra Ongs de “menininhas bonitas bem intencionadas”, demoniza jovens que fumam maconha (“quantas crianças vão para o tráfico para esse cara fumar um baseado”) , e rotula todos com a mesma insígnia de “inimigos públicos número 1”: consumidores, traficantes, policia corrupta, ongs, todos merecem um “corretivo” dos camisas-preta.

O filme e o personagem não criam nenhuma brecha para qualquer questionamento, a ação arrasta o espectador para um discurso regressivo e vingativo, bastante popular, de culpabilização, moralismo e terror, sintetizados na cena em que o Capitão Nascimento, enfia a cara de um consumidor num cadáver ensangüentado berrando “veado, maconheiro é você que financia essa merda!!!”

O prazer, o gozo regressivo do personagem em estado de excitação vai produzindo uma comoção fácil na platéia, a verdade da fúria santa e da “indignação”, o mesmo tipo de denuncismo e indignados que a mídia não cessa de repercutir e incensar, com a propagação de idéias e slogans simplórios, “contra a corrupção”, “contra dar dinheiro aos pobres”, contra qualquer política que crie uma real ruptura no estado das coisas.

Narrados na primeira pessoa, os dois filmes constroem uma identificação imediata, cinematográfica, entre o espectador e os personagens-narradores a partir desses momentos de catarse. O Capitão Nascimento excitando nosso devir-fascista, com sua “expertise”, frases-feitas, camisa-preta e apologia da tortura, do extermínio e celebração da morte. Ou seja, o terror de Estado legitimado cinematograficamente e socialmente. E, de outro lado, o narrador-experimentador, João Estrela, também falando na primeira pessoa do singular e partilhando seu devir-consumidor, devir-traficante, devir-família, devir-presidiário, devir-careta, sem que nada disso seja “incompossível”, nem tenha que ser demonizado e negado.

A primeira vítima da narrativa de Tropa da Elite é, portanto, o espectador, tornado refém da lógica do Capitão Nascimento e de Matias, aspirante a Capitão, que só têm um devir: virarem assassinos fardados e arrastar o espectador no gozo regressivo da repressão, da tortura, e da infantilização, o Bope é o “bicho papão” de preto e caveira, fantasia carnavalesca que as crianças adotaram no Rio de Janeiro, “e que vai pegar você”.

O filme cola nesse discurso de tal forma que é impossível não querer o que ele quer e não justificar suas ações. O espectador se torna refém. Não é coincidência que o símbolo do Bope é a mesma caveira-símbolo dos esquadrões da morte. A pulsão de morte e a adrenalina, o gozo imperativo e soberano em ver, infligir e se expor a violência está presente em todo o cinema de ação comercial, numa regressão planetária que reafirma a "autoridade absoluta", o poder que normalizaria o caos e regraria a catástrofe, mesmo que utilize para isso a violência e arbitrariedade máximas. Toda a ideologia Bush, anti-terrorista, cabe aí. É o mesmíssimo discurso! A guerra infinita, a guerra total permanente.

O dualismo e pragmatismo do personagem do Capitão se repetem em cenas catárticas em que esculacha e sufoca com um saco plástico gosmento de sangue um garoto do tráfico, chutado, espancado, torturado, para passar mais informações. O filme justifica a tortura da “boa” policia como parte de sua expertise e eficiência. A tortura é apenas mais uma “tecnologia”, como o Caveirão, totalmente justificada, “moralmente” e cinematograficamente, como num “institucional do Bope”, como já disseram.

Meu nome não é Johnny aposta num anti-Capitão Nascimento, um anti-herói hedonista e sedutor, “no stress”, que cheira para se divertir, para amar, sem deixar de ser afetuoso, família, amigo, amante. A figura não-clichê de João Estrela sugere que o pressuposto de “um mundo sem drogas” é no mínimo hipócrita, e não leva em consideração a cultura e o desejo humano e um componente importante no cenário contemporânea, o risco assumido e livre. Como a gordura trans e o álcool, qualquer droga seria um “direito” do consumidor contemporâneo. Por que não?

É sabido que o consumo de drogas não fere nem ameaça a rede social, é uma decisão, um risco individual. O consumo de drogas não seria menos epidêmico e arriscado que o consumo de gorduras, aditivos cancerígenos, miríades de estimulantes, calmantes, excitantes e no máximo poderia ser um caso de saúde pública, não um caso de polícia se não houvesse a ilegalidade na produção e consumo.

É a ilegalidade e o proibicionismo que levam a criação de sistemas violentos para assegurar a produção e comércio das drogas. Grupos armados e para-militares para assegurar a produção e venda e defender o negócio da polícia e de outros concorrentes, acertos de contas internos, zonas de controle de territórios pela violência armada, corrupção, subornos, assassinatos para assegurar a lavagem de dinheiro, cultura da delação e da traição, delação premiada, produzindo ódio, desconfiança e vingança generalizados.

Sobre a legalização das drogas, o Capitão Nascimento age como uma toupeira. Essa hipótese não existe para o personagem, nem para o filme, dramaturgicamente. Em Meu Nome não é Johnny a questão aparece de forma mais interessante e complexa, mas não faz parte do mundo mental ou social dos personagens.

As hipóteses e explicações nos filmes patinam em clichês já sabidos (mas não custa repetir, Meu Nome não é Johnny é muito mais sofisticado e sutil).

Afinal, por quê não circulam outros discursos sobre as drogas, como os da juíza de direito Maria Lúcia Karam ou do advogado carioca André Barros, que defendem e militam pela descriminalização, a medicalização e a legalização das drogas, com avanços gradativos?

O usuário podendo fazer uso de consumo individual, freqüentar salas de consumo, ter acompanhamento médico e controle da qualidade do produto, até chegarmos a legalização e controle do comércio de drogas, seja por empresas privadas ou pelo estado.

Legalizar, defende a juíza, é quebrar o ciclo da violência das armas, da corrupção (da policia, de políticos, de empresários), da guetificação da violência e da repressão policial infringida às favelas e aos pobres, do uso e extermínio da mão de obra infantil e de jovens, da degradação da saúde, através do uso seguro, é romper um ciclo vicioso de violência já instalado.

Legalizar é acabar com a hipocrisia e combater a violência extrema e o regime de exceção e arbitrariedade legitimados pelo Estado, pela polícia, pela sociedade-anti-pobres e pelo tráfico, sócios na produção da atual barbárie.

Nem corrupção, nem omissão, nem guerra. A questão é de guerrilha, é não ficar refém do Capitão Nascimento, é minar os clichês e discursos conservadores. Chega de vingança regressiva, chamem a juíza Karam!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Várias leituras do mesmo fato - confiar em quem?

Nesse post insiro a mesma notícia, porém de fontes diferentes. Inicialmente reproduzo um artigo publicado no blog RS URGENTE, de Marco Aurélio Weissheimer, também editor na Agência Carta Maior, sobre a execução de um mandato de busca e apreensão a alguns objetos supostamente roubados por militantes do MST. Em seguida a mesma notícia, publicada no Correio do Povo e na Zero Hora, respectivamente. Tirem suas próprias conclusões.

Em tempo: somente a Zero Hora cita a presença de policiais federais à ação, o que é duvidoso, pela natureza das atribuições da PF (adicionado às 15:51).


Do RS URGENTE, em 18 de janeiro de 2008:

O fotógrafo Leonardo Melgarejo faz o seguinte relato dos acontecimentos, ontem, no assentamento Nova Sarandi, quando a Secretaria de Segurança Pública do RS mobilizou um aparato de centenas de policiais para executar uma ação de busca e apreensão.

  1. Encontro Estadual do MST se realiza em assentamento muito bem sucedido, área federal desapropriada há cerca de 20 anos e cedida para as famílias ali estabelecidas, que ofereceram seu espaço, suas casas, para os cerca de 1500 participantes do evento.
  2. Um juiz estadual determina mandado de busca e apreensão para itens supostamente roubados por algumas pessoas que supostamente estariam participando do Encontro. Os itens incluem um anel de ouro, uma máquina fotográfica, R$ 200, um rádio de carro, entre outros. Merece destaque o fato de que estes itens são apresentados desta forma, que não permite sua identificação. Qualquer anel dourado, qualquer máquina, qualquer conjunto de notas e moedas somando R$ 200 se enquadram no rol de provas a serem buscadas.
  3. É montado um aparato de busca envolvendo o que se vê nas fotos. O assentamento é cercado. Os assentados são informados, na parte da tarde, que na manhã seguinte será executada a ação.
  4. Os assentados, que convidaram os participantes a se reunirem ali, não aceitam abrir suas casas para uma revista que não daria em nada, pelo absurdo do ato.
  5. Ao amanhecer inicia-se o processo, com divergências entre o comando da Brigada e o comando da Polícia a respeito da necessidade de levar a ação a termo, nos moldes em que ela está se delineando. Com apoio do comando da Polícia, são estabelecidas negociações envolvendo vários interlocutores, que incluem ministros de estado, juízes, ouvidores agrários e diversas articulações para obter manifestação da governadora, que supostamente já haveria dado seu consentimento ao ato. A imprensa internacional anuncia a possível tragédia. A ONU se manifesta pedindo suspensão da ação.
  6. Os agricultores se preparam para oferecer resistência, com paus e pedras. A organização dos agricultores consegue conter o nervosismo de todos, a tensão é amenizada com canções. No momento em que o confronto parece inevitável, a negociação evolui para bom termo. Os ônibus são revistados pela polícia, a Brigada Militar não entra na área do assentamento, a ação militar é suspensa, os agentes se retiram, agricultores retornam às atividades do Encontro.
Fotos: Leonardo Melgarejo

Escrito por Marco Weissheimer às 15h26
Do Correio do Povo, de 18 de janeiro de 2008 (capa):
Negociação evita confronto

Duraram cerca de oito horas as negociações envolvendo a Brigada Militar (BM), a Polícia Civil e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no cumprimento de um mandado judicial de busca e apreensão expedido pelo juiz Orlando Faccini Neto, de Carazinho. Ele mandou recolher os 17 ônibus usados para levar centenas de sem-terra a uma invasão relâmpago, de três horas, à fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul, na segunda-feira passada, e localizar objetos, armas e munição que sumiram da propriedade rural depois da ocupação.

Durante a madrugada, a BM vistoriou dois acampamentos no município de Coqueiros do Sul e prendeu um homem por porte ilegal de arma. Ao amanhecer, cercou a cooperativa do Assentamento Novo Sarandi, em Pontão, mas encontrou resistência dos cerca de 1,1 mil militantes do MST que estavam no local para um encontro estadual. O impasse se estendeu até as 16h, quando, por acordo, houve uma revista de instalações, ônibus e 50 pessoas, na qual nada foi encontrado.

'Fizemos cumprir a ordem do juiz sem recuar jamais', afirmou o coronel Paulo Mendes, subcomandante da Brigada Militar, ao final da operação. Mendes conduziu as negociações, junto com o ouvidor-geral da Segurança Pública, Adão Paiani, e o delegado regional de Carazinho, Luiz Fernando Pinto.

Operação para cumprimento de mandado judicial de busca e apreensão em acampamentos mobilizou 600 policiais militares

Da Zero Hora, de 18 de janeiro de 2008:
Três dias depois de invasão-relâmpago de integrantes do movimento em Coqueiros do Sul, polícia cumpre mandados em acampamentos

O governo do Estado respondeu forte à provocação feita por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que na segunda-feira promoveram uma invasão-relâmpago à Fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul, no norte gaúcho.

Na manhã de ontem, cerca de 700 policiais militares, civis e federais desembarcaram em frente a dois acampamentos do movimento, no município, e à sede do Assentamento Novo Sarandi, em Sarandi. O motivo era o cumprimento de um mandado de busca e apreensão de objetos e dinheiro supostamente roubados durante a invasão dos sem-terra à Coqueiros.

Embora reunidos em silêncio, com homens do Batalhão de Operações Especiais de Porto Alegre, Santa Maria e Passo Fundo, os policiais foram recebidos na porteira da Novo Sarandi - antiga Fazenda Annoni e berço do MST - pelos cerca de 400 sem-terra que estão no local, por volta das 7h. Ali, acontece desde segunda-feira um encontro estadual do movimento.

Uma longa negociação se estendeu até as 16h, quando, finalmente, os sem-terra concordaram com a vistoria na propriedade. Antes disso, houve momentos de tensão. Argumentando que os objetos procurados não estavam na propriedade, os sem-terra bloquearam a passagem dos agentes.

Policiais não encontraram objetos desaparecidos

A Brigada Militar e a Polícia Civil, comandadas respectivamente pelo subcomandante-geral da BM, coronel Paulo Roberto Mendes, e pelo delegado regional de Carazinho, Luís Fernando de Azevedo, pretendiam entrar a qualquer preço, afirmando ter uma ordem judicial a cumprir. Como os sem-terra ameaçavam reagir com força, os ânimos foram acalmados pela intervenção do ouvidor-geral da Segurança Pública, Adão Paiani, que acompanhava a ação e conversou diversas vezes com a governadora Yeda Crusius, que trabalhou intensamente para evitar o confronto.

No meio da tarde, 70 agentes da Polícia Civil, 10 delegados e 40 soldados da Brigada Militar entraram na área com aval do movimento.

- Nós resistimos à mão opressora do latifúndio, que usa o braço armado do governo para nos reprimir. Mas não queremos derramamento de sangue. Mais uma vez, a governadora mostra seu novo jeito de governar - reclamou uma líder do MST que preferiu não se identificar.

A vistoria na sede da granja usada para a reunião foi feita em cerca de 30 minutos. Nenhum dos objetos procurados foi encontrado, mas foram apreendidos uma foice e alguns pedaços de madeira que poderiam ser usados como arma. O encontro estadual do MST termina hoje à tarde.

Nos dois acampamentos do movimento em Coqueiros do Sul, para onde se deslocaram cerca de 200 policiais, não houve dificuldade para o cumprimento do mandado judicial. A revista aconteceu ainda pela manhã. Foram apreendidos uma espingarda, um esmerilhador, um binóculo e uma motosserra de origem ainda não identificada.

LEANDRO BELLES | Passo Fundo/Casa Zero Hora


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A (des)confiança na mídia

Esta matéria foi publicada no Observatório da Imprensa, em 29 de janeiro desse ano, e merece que se perca alguns minutos em sua leitura. Bom proveito.

PESQUISAS DE OPINIÃO

A (des)confiança na mídia

Por Venício A. de Lima em 29/1/2008

Telespectadores da edição de terça-feira (22/1) do Jornal da Globo e leitores do jornal O Globo (24 e 25/1) foram surpreendidos com a informação de que "brasileiros confiam mais na mídia" e que "o governo ficou em último lugar" (entre as instituições mais confiáveis), segundo pesquisa realizada por uma empresa de nome Edelman. Surpreendidos porque outros resultados divulgados recentemente indicam tendência exatamente oposta.

O que justificaria mudança tão repentina na opinião dos brasileiros?

Um estudo mundial sobre a credibilidade das instituições, contratado pela BBC, a Reuters e o The Media Center, realizado em março de 2006, revelou que, no Brasil, mais da metade dos entrevistados – ou 55% – declarou que não confiava nas informações obtidas através da mídia. Entre todos os países pesquisados, esse percentual era igual ao da Coréia do Sul e só não era maior do que o obtido na Alemanha (57%). Além disso, a pesquisa revelou que, comparativamente, o Brasil era o país onde os entrevistados estavam mais descontentes com a sua própria mídia: 80% disseram que a mídia exagera na cobertura das notícias ruins; 64% concordam que raramente encontram na grande mídia as informações que gostariam de obter; 45% não concordam que a cobertura da grande mídia seja acurada; e 44% declaram ter trocado de fonte de informação nos 12 meses anteriores por terem perdido a confiança [ver, neste Observatório, "Pesquisa revela a (des)confiança na mídia"].

Parte da elite

Por outro lado, além das sucessivas pesquisas de opinião realizadas pelos principais institutos brasileiros (Ibope, DataFolha, Sensus, Vox Populi) indicarem índices positivos de avaliação do governo, o LatinoBarômetro 2007 divulgado em novembro de 2007 mostrava que o presidente do Brasil foi o mais bem avaliado da América Latina (ver aqui).

Ao contrário, a notícia publicada no jornal O Globo (25/1, A-8), com o título "Brasileiros confiam mais na mídia" e subtítulo "Pesquisa mostra que imprensa tem credibilidade para 64%; governo, para 22%" afirma que:

"Pesquisa realizada pela multinacional de relações públicas Edelman mostrou que 64% dos brasileiros consideram a mídia a mais confiável das instituições. Conforme informou ontem a coluna Ancelmo Gois, no Globo, o governo é a instituição de menos credibilidade para os brasileiros – apenas 22% das pessoas ouvidas disseram ter confiança" [ver abaixo texto integral da matéria].

Um leitor atento, no entanto, que não se inclua entre os brasileiros entrevistados e não confie tanto assim na mídia, poderá, ele próprio, visitar o site da Edelman – a maior empresa de relações públicas do planeta, com sede em New York/Chicago e escritórios em 46 cidades de 23 países dos 5 continentes, inclusive São Paulo – e obter informações fundamentais que não encontrará na matéria de O Globo sobre a tal pesquisa.

O "2008 Edelman Trust Barometer" foi realizado nos meses de outubro e novembro de 2007 e os 150 (isso mesmo, cento e cinqüenta) entrevistados, por telefone, no Brasil, são considerados (por quais critérios?) "líderes de opinião" – 50 deles entre 25 e 34 anos e 100 entre 35 e 64 anos. Eles têm curso superior, pertencem aos 25% detentores do maior nível de renda por domicílio e têm grande interesse em assuntos relacionados à mídia, à economia e aos negócios públicos.

Trata-se, portanto, de uma amostra de parte da elite brasileira, sem qualquer representatividade do conjunto da população.

Amostras representativas

Lendo e relendo os textos das matérias de O Globo e do Jornal da Globo, fica-se com a impressão de que eles foram escritos deliberadamente para passar a idéia (falsa) de que a maioria dos brasileiros confia mais na mídia do que no governo. As matérias, ao não contextualizarem a informação e omitirem dados essenciais sobre a pesquisa da Edelman, acabam por contar uma meia verdade que esconde uma inverdade.

Não é sem razão que a credibilidade da mídia, revelada por pesquisas feitas com amostras estatisticamente representativas do conjunto da população, é – ao contrário do que diz O Globo – cada vez menor entre os brasileiros.

***

Brasileiros confiam mais na mídia

Pesquisa mostra que imprensa tem credibilidade para 64%; governo, para 22%

Copyright O Globo, 25/1/2008

Pesquisa realizada pela multinacional de relações públicas Edelman mostrou que 64% dos brasileiros consideram a mídia a mais confiável das instituições. Conforme informou ontem a coluna Ancelmo Gois, no Globo, o governo é a instituição de menos credibilidade para os brasileiros – apenas 22% das pessoas ouvidas disseram ter confiança.

A pesquisa foi realizada em 18 países, entre outubro e novembro, em entrevistas por telefone. No Brasil, 150 pessoas foram ouvidas. Foi a nona pesquisa realizada pela empresa e, pela primeira vez, grupos foram separados por idade: de 25 a 34 anos e de 35 a 64. Um dos dados destacados é que só em três países – Holanda, Suécia e China – o governo foi considerado a instituição de maior credibilidade.

Brasileiros confiam em empresas multinacionais

No Brasil, a confiabilidade da mídia superou a de empresas (61%) e organizações não-governamentais (51%). Multinacionais atingiram altos percentuais de credibilidade no Brasil e no México – à exceção de chinesas e russas. Segundo a pesquisa, nos países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) o uso da mídia social pelas empresas é geralmente alto e também entre jovens formadores de opinião.

O estudo indicou ainda que 44% do grupo formado por pessoas entre 35 e 64 anos tendem mais a ler jornal impresso do que eletrônico (21%). A diferença de percentual diminui no grupo de 25 a 34 anos: 35% lêem os impressos e 30%, os onlines.

Nos 18 países, CNN (25%), BBC (17%) e Google (9%) são as fontes com que as pessoas mais contam para obter informações sobre empresas. No Brasil, 71% consideram confiáveis os artigos de revistas especializadas em negócios.

O setor de tecnologia é o mais confiável em 17 dos 18 países, seguido por biotecnologia, ciências biológicas. A média de credibilidade nos 18 países para propaganda de produtos é baixa: apenas 20%.

A maioria acredita em especialistas e "pessoas como nós" – aqueles que compartilham dos mesmos interesses e têm crença política similar – como fontes de informação. No Brasil, no entanto, a importância de compartilhar interesses caiu de 79% para 65% nesta pesquisa.

Nos Estados Unidos, uma má notícia para a senadora Hillary Clinton: foi perguntado em qual gênero a população confiaria mais para o cargo de presidente. A maioria dos ouvidos (69%) disse que ser homem ou mulher não faria diferença. No entanto, um índice estatisticamente alto prefere um líder do sexo masculino (16% contra 7%).

domingo, 27 de janeiro de 2008

Em relação ao mérito

Faço parte de um grupo muito especial de veteranos da FABICO. Somos os primeiros a ter bixos cotistas, e acho que já estava na hora de quebrar o silêncio e escrever sobre. É matemático que um assunto polêmico como esse levante opiniões radicais e sem embasamento, entre essas, muita coisa que não merecia nem ser ouvida. O problema é que grande parte dessas opiniões está vindo de onde não devia: da própria classe universitária, e, em especial e de modo muito preocupante, de alguns estudantes de comunicação social, pessoas que, na teoria, deveriam ser muito bem informadas.
Tendo em vista especialmente o resultado das cotas raciais em jornalismo, na UFRGS, é possível derrubar aquele tipo de argumento que dizia que qualquer um que concorresse como cotista seria aprovado sem nem precisar saber ler direito. Das oito vagas oferecidas para negros oriundos de escolas públicas, apenas duas foram ocupadas, provando que nenhum semi-analfabeto passa no vestibular da nossa federal – as vagas restantes permitiram a aprovação de mais seis alunos de escola pública sem distinção de etnia, além das oito já oferecidas. Há um bendito ponto de corte no vestibular, esquecido pelos que se colocam em oposição a esse sistema, que impede a aprovação de quem acerte menos que 67 das 225 questões de toda a prova objetiva, o que dá uma média de 7 acertos por prova (só para se ter uma idéia, a maioria das provas do vestibular da UFRGS de 2007 tinha média 9. Há uma diferença gigantesca no rendimento? É visível que não). Mas é preciso aprofundar-se na questão, e nesse caso os números não são necessários.
Falar em mérito pessoal numa sociedade extremamente desigual como a nossa é muito difícil e exige sensibilidade, coisa distante do senso-comum, que impera até mesmo numa universidade federal. É só pisar numa escola pública para se ver o estado deprimente dos ensinos fundamental e médio oferecidos. Digo isso por ter estudado minha vida toda em escola estadual. Para ilustrar, cito a carência, na minha antiga escola, de aulas eficientes de geografia, literatura e matemática só no terceiro ano, em que as professoras saíam no meio da aula para fumar e deixavam os alunos sem explicação nenhuma, e ai de quem perguntasse alguma coisa sobre a matéria! Agora, é justo, ou ao menos sensato, dizer que um aluno que sofre com falta de aulas tem menos mérito a uma vaga em alguma faculdade do que um aluno que estudou a vida inteira em escola privada, tendo o melhor ensino possível ao seu bolso? Meus colegas de ensino médio, por volta de trinta só na minha turma, nem falavam em prestar vestibular por se verem sem condições nenhuma de enfrentar qualquer um dos “bacanas” do Anchieta, do Leonardo da Vinci ou de tantas outras escolas privadas. Tendo-me como exemplo, que com um único ano de cursinho, pago a vinte prestações e com muita dificuldade, consegui desbancar muita gente que estudou toda a sua vida (!) em escola paga, pode-se ter uma base de quantas pessoas com as minhas mesmas capacidades são desperdiçadas por terem de trabalhar para ajudar a sustentar suas casas, perdendo qualquer oportunidade de entrarem no ensino superior em função de necessidades cotidianas.
Que mérito alguém tem por ter pago todos os seus As e Bs que qualquer um outro não teria se tivesse a mesma chance? É imperativo, para uma discussão sobre merecimento, que o ponto de partida para a comparação seja o mesmo para todos. O mesmo ensino, a mesma estrutura. Só a partir da igualdade é que podemos perceber quem merece mais do que quem. Apenas quando a todos forem dadas as mesmas oportunidades é que saberemos quem tem a bênção de poder entrar numa universidade. Pois, no final de tudo, essa discussão não passa da velha luta de classes. É tudo medo dessa gente, de perder um lugar sacramentado pela hierarquia social.
E, só para cutucar, mérito se prova mesmo dentro da faculdade, não numa prova objetiva que aprova apenas quem acerta mais. Os fabicanos que colam nas provas finais que o digam!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Sexta-feira

Aí vai o texto produzido em LPI, Como pedido:

Sexta-feira

Sexta-feira, o tradicional “happy-hour”entre amigas com aquele chopp bem gelado, falando muitas besteiras, geralmente mal do trabalho, os melhores cabeleireiros, restaurantes, dietas, academias, plásticas. Quem seria o bonitão que apareceu no escritório da Jujuba era a pergunta que não queria calar. Risos, gargalhadas, uma mulherada efusiva demais para meu gosto. Eu, em meu canto, estava mais interessada em ver o fundo do meu caneco. O garçom desceu um, dois, três chopps, prometi a mim que pararia no próximo número primo.

Talvez a freqüência dos encontros tornaram-nos chatos, ou talvez tenha sido eu que tenha me tornada chata. Parece que o fenômeno da eterna juventude atingiu minhas amigas após suas separações. Todas querem aparentar serem adolescentes, com seus namorados da idade de seus filhos, usando as mesmas roupas que meninas de quinze anos usam, discutindo as Raves do momento, um “blablabla” horroroso, diarréia verbal. Nunca fui um poço de sabedoria, contudo nada de abusar. O mínimo de cultura e conhecimento prezara. Havia imaginado que ao chegar aos 40 anos não me sentiria assim tão deslocada, seria, sim, muito segura de mim, solteira convicta. Sempre. Chamar o garçom, jantar, e partir sozinha têm sido cada vez mais difícil. Começo me sentir sozinha ao lembrar que vou encontrar apenas meus scarpins em meu apartamento.

Sinto o álcool penetrando em cada célula do meu corpo, fazendo-me perder o controle de minhas ações – mais especificadamente dos meus olhares. Sem dar-me conta, “seco” o moreno de olhos verdes, ombros largos a duas mesas da minha. Sua eloqüência chamou-me muito a atenção, estava fascinada. O álcool e a falta de sexo há 43 dias me fizeram tomar uma decisão que sem esses agravantes nunca teria coragem: enviei um torpedo escrito em um guardanapo de seda através do garçom para o tal deus grego. Na hora, minhas amigas me olharam chocadas pela minha cara-de-pau. Segundo elas, o homem que tem que tomar a iniciativa, que eu havia manter a compostura – mas que compostura têm elas enfiadas em calças jeans dois números menores que o ideal? Apenas respondi “deu vontade, pronto”! O pior que poderia acontecer seria ser ignorada e voltar para casa descalça, pois não conseguia mais me equilibrar em meu salto agulha.

De súbito, o garçom se aproxima:

– Este é cortesia do rapaz da mesa ao lado – e serviu mais um chopp. O rapaz da mesa ao lado era o mesmo do torpedo. Olhei-o e ele respondeu com uma piscada. Corei na hora! Há tempos não flertara ninguém.

Senti-me o “gás da coca-cola”, todas aquelas “queridas” amigas babaram de inveja. No auge da bebedeira, percebi as meninas juntando suas bolsas e me abandonando ali, como se estivesse pegando fogo no bar. Até olho, na realidade tento olhar para os lados para ver o porquê da demanda, e o que vejo é o deus grego vindo rente a mim.

– Posso sentar-me aqui?

– Claro... (derretendo-me como uma manteiga).

Ao cumprimentá-lo com os tradicionais três beijinhos no rosto, percebo que ele também é incrivelmente cheiroso e transpassava uma segurança de quem sabe o que quer, e, naquele momento, era a mim que ele queria. Conseguia ler em seus olhos seus pensamentos mais pecaminosos – ou talvez seriam os meus pensamentos refletidos. Com aquele homem ao meu lado, senti-me a mulher mais poderosa do bar, da cidade, do universo! Estava podendo, fisguei o peixão da noite com um flerte pra lá de tosco.

A conversa fluía maravilhosamente bem, assim como as cervejas. Cada vez nossos corpos se aproximam mais, até que, ao pé do meu ouvido, acariciando meu pescoço, sugere:

– O que tu achas de conversarmos num lugar mais calmo, tenho ótimos vinhos e dvds em casa. O que mais lhe agrada?

– Merlot seco e Janis Joplin.

A resposta saiu sem pensar, puro impulso.

Juntei meus cacos não embriagados da cadeira e tentei acompanhá-lo com elegância. Sentindo minha dificuldade, ofereceu-me o braço. Meu Superego tentou pronunciar-se dizendo para não ir para a casa dele, entretanto o meu Ide berrava para que o acompanhasse. Não poderia ter outra atitude, talvez nunca mais o visse na vida, em outro momento nem percebesse minha existência. Aquela era a hora, o momento. Por conveniência, adotei o lema “Carpe Diem”. Só hoje não tem problema.

Ele abriu a porta do carro – o carro do bofe era de arrasar, como nunca entendi porcaria nenhuma de carros, o que posso dizer é que é daqueles importados que todos babam... sinceramente, eu moraria dentro dele.

Continuamos conversando durante o caminho, mas não conseguia abstrair mais nada da conversa, apenas imaginava aquele homem maravilhoso nu! E só pra mim! Mentalmente faço um check-up: depilação em dia, calcinha e sutiã combinando... é... tudo em ordem!

Chegamos ao apartamento: tudo muito lindo, muito bem decorado, impecável, um apartamento dos sonhos – não fazia idéia em que parte da cidade estava, mas nem fazia diferença mesmo! Enquanto ele escolhia o vinho, olhava os porta-retratos na tentativa de conhecer melhor o futuro pai dos meus filhos – sim, a essas alturas, um homem lindo, educado, com bom gosto e com uma vida feita é para casar! Começo a rir de mim mesma por pensar tal bobagem! Cueca na gaveta nunca, no máximo atirada no sofá!

Ele se aproxima com as taças de vinho. Serve a ambos e a tensão sexual tornou-se tanta, que não demorou muito para que nos beijássemos e os corpos tomassem o rumo do quarto. Apenas à luz de várias velas, fomos arrancando a roupa um do outro enlouquecidamente. As mãos não possuíam pudor algum, explorando cada centímetro de pele, sabor salgado na língua do suor do corpo. Várias vezes nossos olhos se encontravam e engoliam-se. Respirações cada vez mais ofegantes, palavras picantes sussurradas entre beijos. Era algo tão espontâneo que parecíamos amantes de longa data, e, no auge da excitação, falei:

– Vai, me agride!

Os olhos dele vibraram. Logo após ele ficou sério, até demais. Levanta-se da cama e busca tiras de cetim que estavam no criado mudo. Junta meus punhos, amarra-os e prende à parede que possuía uma argola de aço (dessas de pendurar redes) fixa.

Estava lá eu, nua e amarrada a parede. Forcei o nó – realmente estava presa.

– Esta noite serás minha. Minha propriedade, mas serás até quando tiveres vontade. Caso queira ser sua novamente, apenas diga “vermelho” ou faça um sinal “V” com os dedos.

Após isso se calou novamente. Essa coisa de sadismo apenas havia lido em Anais Nin e nos contos do Marquês de Sade! Na curiosidade, resolvi aceitar para conferir qual era o “barato”.

Retira do seu criado mudo também, na segunda gaveta, duas algemas que prendem meus tornozelos às pernas da cama. Gelo no estômago. Estava inerte aos caprichos dele, mas empolgada, e muito curiosa.

Em minha boca põe uma fita tape, nem que me esgoelasse não conseguiria gritar. Começa a dar tapas cada vez mais fortes em minhas nádegas. As mãos tornaram-se garras. Ao invés de beijar meus mamilos, mordidas fortes. Mais tapas pelo corpo. Parei e olhei para situação em que me encontrava. Estava na casa em que mais parecia uma masmorra e me submetendo a boneca inflável.

Ficou ali observando-me, como se agora eu fosse o troféu da noite. Não pronuncia uma palavra, quando me toca, não é carícia como antes, sim agressão.

Quando ele puxa um chicote de três tiras, tento gritar desesperadamente a merda da palavra “vermelho”, mas a fita não permite! Ele chicoteia a cama, pega de raspão no meu tornozelo – vejo que corta minha pele branca. Desesperadamente faço a porra do sinal “V” com os dedos e a chorar enlouquecidamente. Ele dá um pulo da cama e pergunta se quero parar. Confirmo que sim com a cabeça.

– Ok, vou lhe soltar, mas me promete uma coisa?

Respondo que sim com a cabeça.

– Promete que não vais sair correndo quando te soltar?

Novamente respondo que sim.

Tira-se a fita de minha boca, assim mostrando que já estava soluçando como uma criança quando está chorando de medo. Abre-se as algemas dos tornozelos e, com muita calma, ele desamarra meus punhos. Dou um pulo para o canto da cama. Com o susto, todo álcool se fora embora do meu organismo. Enrolo-me no lençol e me afasto para o outro canto do quarto. Ele se aproxima e começo a gritar, chorar. Chamo-o de louco, pervertido. Não dou nenhuma chance para o doido se explicar ou ao menos dar desculpas. Corro para o banheiro com minhas roupas. Me vesti tão rápido que coloquei o vestido do avesso. Saio com uma cara de super desconfiada e peço para que me deixe num ponto de táxi. Ele insiste para que me leve até em casa, como um pedido de desculpas.

Aceitei a carona para casa, não fora citada uma palavra sequer o caminho inteiro. Ao descer do caro, ele solta um “desculpe qualquer coisa”.

Deu vontade de mandar a merda um otário desses. Ninguém o avisou que não se sai chicoteando as pessoas por aí? Fico quieta e dou as costas.

Entro em casa, tomo um bom banho para relaxar. Deito-me. Minha adrenalina ainda estava alta, não conseguia dormir.Tomei três lexotans e uma séria decisão: Amanhã compro um vibrador. Dá menos dor de cabeça e quem manda nessa relação de posse sou eu!